Só são sete da manhã.

No frio é pior, o povo fecha as janelas não sei com medo de quê, de vento? aí o calor humano faz suar os vidros, o teto, os bancos, e claro, eu, que saí de casa bem agasalhado, com blusa, luva, toca e tudo, eu sou friorento, mas tá um bafo aqui, acho que vou derreter. Quero arrancar esse exagero de roupa, mas esbarro em tudo, em todo mundo e minha mochila fica aberta, caiu alguma coisa? meu iPod, minha chave, meu Moleskine tá novinho, se alguém achar me devolve porque meu ponto é o próximo, não é? tá tudo embaçado. Ô cidadão,

por gentileza abre a janela e me diz que rua é essa, que transito é esse, preciso descer já já, preciso vestir a blusa, as luvas, é um caos. Pior só quando chove. Peguei o guarda-chuva da minha irmã, mas transparente não combina, o do meu pai é gigante, se tiver ventania vou voando pro trabalho. O pessoal do ônibus tem mania de apoiar a mochila molhada no meu pé. Quero o guarda-chuva do Coringa, quero meter chumbo nesses rostos embebedados em mau-humor matinal, nessa pessoa que senta ao meu lado toda esparramada sem pedir licença, vem com esse bundão, com o cotovelo na minha cara. Quando não, alguém resolve roçar a braguilha no meu ombro. Só são sete da manhã. Quero um guarda-chuva-metralhadora, quero matar o tempo, a moça do tempo. Se sair sol, enfio minha jaqueta na goela da bendita. São Pedro merece uns tapas. Estou cansado. Quero ir embora, mas não pra casa porque deve tá uma bagunça: centrífuga, tanquinho e a panela de pressão gritando na cozinha. Meu cachorro é lélé, late quando a roupa balança no varal. Mas tá um calor nessa sala, nessa cidade, neste planeta. Se eu soubesse tinha lavado meu edredon. Meu cachorro é doido, ele ama a sombra que os lençóis estendidos desenham no quintal. Quero ir embora pra outra cidade, faz décadas que não vejo o mar. Quero água de coco sem ser de caixinha. É que anteontem vi fotos de praia no Facebook de alguém já foi para Amsterdã, Chile, Barcelona, Nova York e o resto do mundo! A loura do terceiro andar insiste em conferir a marquinha de biquíni no espelho do elevador, eu pergunto se é normal esse mormaço, essa quentura, e esse decote esquentou ainda mais as coisas, acho que vou derreter. Não suporto essa rotina, esse clima, esse trânsito, esse ônibus, essa loura, esse silêncio no elevador, esse tanquinho cuspindo espuma, exagerei no sabão outra vez. Meu cachorro é feliz, ele corre atrás das bolhas translúcidas que a brisa morna espalha em meu quintal iluminado por um sol laranja que brilha no sereno céu de abril. A meteorologista errou feio. Quero horas são? Estou cansado, à beira de abandonar tudo. Quase tudo. Você não.

~ http://bit.ly/bhLmNp